Brazilian Nuggets Vol 1 - Back From The Jungle!
Trata-se de uma compilação com algumas preciosas e raras gravações da jovem fuzz brasileira. 
Em 1963, com a bossa nova atravessando momento esplendoroso, aprender a tocar violão era tudo que uma boa parcela da juventude mais abonada almejava. Sobretudo, a da Zona Sul carioca, embalada pelo frescor de canções como “Garota de Ipanema”, “Samba do Avião”, “Rio” e “Ela é Carioca”. Mas com a explosão dos Beatles, no início de 1964, foi a guitarra “elétrica”, como se dizia na época, que se tornou o instrumento da moda. Não havia jovem, de onde quer que fosse, que não alimentasse a idéia de empunhar o instrumento, deixar o cabelo crescer , subir num palco e se sentir como um dos Beatles, on the toppermost of the poppermost.
Por volta de 1965, já havia um número assustador de bandas. Muitas, copiando em estética e estilo as inglesas e norte-americanas. Inclusive o repertório, devidamente cantado em seu idioma original, o inglês. Faziam parte da cena underground das grandes cidades, principalmente do Rio e de São Paulo e não desfrutavam de acesso fácil à TV, às rádios e nem mesmo às grandes gravadoras. Entre elas, The Bubbles, Som Beat, Baobás, Analfabitles, The Outcasts, The Beatniks e The Galaxies eram presença constante no circuito de clubes de suas respectivas cidades de origem.
No entanto, a grande maioria das bandas surgidas naquele período se servia mesmo do português. Assim, cantavam tanto as versões que faziam de sucessos internacionais, incluídos aqui o pop francês e italiano, quanto as eventuais composições próprias. Tinham também mais acesso às rádios, apareciam com mais freqüência nas revistas e costumavam ter espaço no programa de TV “Jovem Guarda”, apresentado pelos cantores Roberto Carlos, Wanderléa e Erasmo Carlos.
O programa, cuja estréia se deu naquele ano de 1965, virou uma febre, e a estética nele predominante, tanto musical quanto comportamental, passou a servir de modelo para um punhado de novos artistas, o que acabou gerando um movimento musical homônimo, a Jovem Guarda.
No entanto, essa dicotomia do pop/rock brasileiro, entre os seguidores do beat inglês e do rock de garagem norte-americano de um lado e os representantes da jovem guarda do outro (Renato & Seus Blue Caps, Os Incríveis, The Fevers, The Jet Black´s, The Youngsters, The Sunshines etc), nem sempre era tão nítida assim. Tangenciando as duas vertentes, havia bandas como The Brazilian Bitles que, apesar do nome, expunha sua verve garageira ao investir em temas de The Troggs e The Rolling Stones, entre outros, mas através de versões em português para não se afastar muito do mainstream. Já, Os Aranhas, foram ainda mais longe: cuspindo um inglês difícil de entender, transformaram a clássica composição de Van Morrison, “Gloria”, num punk de arrepiar os cabelos.
Evidentemente, havia um número infinitamente maior de artistas, do segundo e até mesmo do terceiro escalão do iê-iê-iê ou pop/rock brasileiro, que também seguia em busca de um lugar ao sol. Muitos, totalmente esquecidos pela mídia, sequer alçaram vôo para além dos limites do seu bairro ou de sua pequena cidade do interior. Evaporaram sem deixar vestígio algum. Outros tiveram a sorte de deixar como legado ao menos um mísero par de canções agrupadas num compacto simples. No caso dos mais sortudos, até mesmo um LP!
Com poucas exceções, é desse time de artistas provenientes dos bueiros e das cavernas mais profundas, esquecidos pelo tempo e à margem da história que a Groovies Records diligentemente pescou algumas preciosas e raras gravações. O resultado é esse mosaico chamado Brazilian Nuggets Vol. 1 - Back From The Jungle!, que coloca lado a lado a surf music de The Blobs, a crítica social punk de The Beggers, uma ode d`Os Merlins ao falecido guitarrista dos Rolling Stones, Brian Jones, e o órgão ao estilo Farfisa de The Baby´s, num dos temas do filme “A Lei do Cão”, de 1967.
Une também diferentes matizes da jovem guarda garageira periférica: Do ex-empregado do cantor Roberto Carlos, Nichollas Mariano (cantando as agruras de um relacionamento ao som de uma fuzz guitar), até Os Nucleares (vagando com muito soul pela imensidão espacial), o disco passeia por Zegê e The Silver Jets, Lup e Loy, Almir Duarte, José Luiz, Os Inseparáveis, Os Terríveis, Fátima Reis c/ Conjunto The Rolling Fevers, Os 5 Jotas e Os Nativos.
Mas não para por aí. E também não se restringe a nomes obscuros da cena periférica. A cantora Wanderléa, um dos principais ícones da Jovem Guarda, surpreende ao invadir a garagem dos norte-americanos de The Seeds para sair de lá com uma versão mais clean, mas não menos garageira, de “Pushing Too Hard” (“Vou Lhe Contar”), com direito a um inusitado solo de piano.
O outro destaque fica por conta do veterano roqueiro Eduardo Araújo. No petardo “Nem Sim, Nem Não” deixa que brilhe a guitarra distorcida e vigorosa de Lanny, uma lenda do tropicalismo, cujas intervenções são precedidas pelo chamado firme de Eduardo: Mr. Lanny!... Lanny!... Lanny!
Finalmente, tráz ainda no seu bojo a psicodelia tropicalista da uma ex-parceira da cantora Rita Lee e dos irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista, o núcleo fundador d`Os Mutantes. Com Rita, formou o grupo vocal Teenage Singers, e com os três e mais dois amigos participou do grupo Six Sided Rockers. Seu nome: Suely Chagas.
Com sua banda, Os Kantikus, Suely lançou um compacto simples em 1968, com “Esperanto” em seu lado B. Embora tivesse aproveitado a trilha aberta pelos Mutantes, naquele ano de máxima ebulição do tropicalismo, o disquinho acabou naufragando num gigantesco mar de indiferença.
Por Nélio Rodrigues, in Senhor F.
(Nélio Rodrigues é autor dos livros Histórias Perdidas do Rock Brasileiro - V. I, Os Rolling Stones no Brasil e Sexo, Drogas e Rolling Stones, em parceria com José Emílio Rondeau).
Faixas/Track List:
01 - The Blobs – Murder
02 - The Beggers – Esses Homens Farrapos
03 - Nicholas Mariano – Dita Cuja
04 - Wanderléia – Vou-lhe Contar
05 - Zegê & The Silver Jets – Não Some Não
06 - Lup & Loy – Sincero Até Demais
07 - Almir Duarte – O Vulto
08 - Merlin’s Message – Requien a Brian Jones
09 - The Babys – Lei do Cão
10 - Eduardo Araújo – Nem Sim, Nem Não
11 - José Luiz – Até Logo, Como Vai
12 - Os Inseparáveis – Vá Para Casa
13 - Os Terríveis – Mar Cruel
14 - Fátima Reis e The Rolling Fevers – Amando Você
15 - Os 5 Jotas – O Boi
16 - Os Nativos – Cara de Idiota
17 - Sueli e Os Kanticus – Que bacana
18 - Os Nucleares - Apolo Zero
LP gentilmente cedido por Luís Futre.
Ripado do vinil. Digitalização (capas e áudio) e masterização, por Carlos Santos.