Maria José Pereira Damasceno Covão, que viria a ser conhecida pelo nome artístico de Maria Pereira, foi muito nova para Lisboa e aos 20 anos de idade já cantava nas mais diversas casas de fado existentes na Capital. Não tardou a conquistar grande popularidade junto do público, por que, em plenos anos de ouro da rádio portuguesa, foi convidada a estrear-se aos microfones da Rádio Peninsular, cantando em directo para o imenso auditório radio-ouvinte, transmissão que se traduziu num enorme êxito, já que, nessa altura, não havendo ainda televisão em Portugal, a rádio era ouvida com grande interesse e avidez. De resto, quando a TV chegou ao nosso País, Maria Pereira foi uma das primeiras artistas a actuar em directo na RTP. Cantora de rara sensibilidade, que soube dar às suas interpretações uma expressão especial que encantava quem a ouvia, Maria Pereira tinha o dom mágico da versatilidade, pois a sua voz fresca e bem timbrada parecia chorar acompanhando a tristeza das melodias que interpretava, mas, por outro lado, também conseguia apresentar-se alegre e cheia de vida, transmitindo a quem a ouvia todo o colorido de uma canção ou de uma marcha popular. Dado o estilo invulgar de Maria Pereira, o então muito popular produtor e apresentador Igrejas Caeiro convidou-a a integrar o Elenco Fundador dos Companheiros da Alegria, um "Espectáculo" diário que iria acompanhar a Volta a Portugal em Bicicleta, a partir de 11 de Agosto de 1951. Terminada a Volta, e face ao sucesso obtido, os Companheiros da Alegria prosseguiram, em digressões pelo País, com lotações esgotadas, até que, em 1953, aproveitando a grande popularidade conquistada, Igrejas Caeiro decidiu alugar o Teatro da Trindade (em Lisboa), para criar uma companhia de teatro, dispensando quaisquer subsídios estatais. Assim, o Elenco Artístico dos Companheiros da Alegria ia apresentar-se numa opereta cómica durante o Carnaval de 1954, com lotações esgotadas para todos os espectáculos previstos. Quando tudo se encaminhava para um êxito clamoroso, eis que o governo de Salazar determinou a suspensão de toda a actividade da companhia artística de Igrejas Caeiro que dependesse da Inspecção dos Espectáculos. Maria Pereira, que, desde a primeira hora, integrou os Companheiros da Alegria, foi uma das artistas que mais desgostosa ficou com a situação. Refira-se, ainda, que Maria Pereira (grande entusiasta do ciclismo) gravou um disco alusivo à Volta a Portugal, com letra do poeta Aníbal Nazaré e música do maestro António Melo. Figura carismática da Música Portuguesa, Maria Pereira atingiu o auge da sua carreira nos anos 60, sendo vasto o reportório gravado em disco, pois interpretou os mais prestigiados compositores da época, acompanhada pelos mais categorizados conjuntos e orquestras. Dentre os grandes êxitos alcançados por Maria Pereira. destaque para a sua grande criação "Primeiro Amor" (também conhecido pelo Fado dos Vinte Anos), com letra de Nelson de Barros e música de Frederico Valério, de que gravou um LP em 1967. Também em Espanha, a sua projecção foi de tal forma relevante que uma produtora espanhola a convidou a filmar "Un Fado Tres Canciones", a que se seguiu "Maria Pereira y Su Espectáculo", após o que foi gravado um LP com a banda sonora do filme. Ao longo da sua carreira, em que conquistou diversos prémios, Maria Pereira apadrinhou as mais diversas iniciativas de cariz popular, nomeadamente as "Marchas de Lisboa". Foi madrinha de algumas marchas, tendo gravado "Madragoa Noiva do Tejo" (Marcha da Madragoa-1967). Apesar de ter começado a sua carreira como fadista, e, como tal, alcançado grande sucesso não só em Portugal Continental, mas também na Madeira, Açores, Guiné, Angola e Moçambique, Maria Pereira, seguindo uma evolução artística natural, levou ao estrangeiro um pouco do seu País e da suas Gentes, através da expressão inconfundível da Música Popular Portuguesa. Fosse em Portugal, Espanha, França ou nas Américas do Sul e do Norte, só cantava Música da sua Terra, Música de Portugal.
(Este "histórico" foi elaborado com base no depoimento de Maria Pereira, ainda em vida, ao autor desta peça José Ezequiel, com vista à publicação de um livro ilustrado sobre a vida artística da cantora.)
Nota: Teve um contrato em exclusivo com a ROBBIALLAC, para umas dezenas de espectáculos, dedicados aos funcionários e aos clientes da marca, tendo até gravado um disco para a referida marca de tintas. Quem não se lembra…
Que é a tinta que mais pinta, que mais dura
Quem não pinta com a tinta Robbiallac
Pinta, pinta para borrar sempre a pintura…
Ripado do vinil. Digitalização (capas e áudio) e masterização, por Carlos Santos.


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