Conjunto de Oliveira Muge – On The Road With… (2º EP Parlophone JGEP 12008, 1966).
Faixas/Tracks: Nessuno Mi Puó Giudicare / Mirza / A Mãe / In Un Fiore.
Em Moçambique e em Portugal o mesmo EP foi editado com capas diferentes, pelo que se reproduzem as duas. Do EP, destacamos o famoso tema "A Mãe".
Biografia:
» De Ovar a Vila Pery «
“Nasceu, assim se pode dizer, de uma brincadeira, pois como tínhamos bastante intuição e vontade para a música, resolvemos formar um conjunto…”
A formação clássica do Conjunto de Oliveira Muge em Moçambique, era formada por José Muge (teclas), António Policarpo (vocalista e viola solo), António Muge (bateria), todos da cidade de Ovar no distrito de Aveiro e José Violante (viola baixo) nascido em Cinfães do Douro mas que vivia em Vila Pery, desde o mês de nascimento.
As suas iniciais actuações remontam ao longínquo ano de 1961, onde actuaram ao vivo em Ovar, no Café Progresso e ainda noutras localidades do Distrito de Aveiro, assim como no Porto, nos estúdios da RTP, com um programa em directo e no Rádio Club Português (RCP/Norte).
No início dos anos 60, António Oliveira Muge (já falecido) foi o primeiro a partir da sua terra natal (Ovar) para Vila Pery/Moçambique. Nessas terras de magia e feitiço, António Muge e mais tarde o seu irmão José Oliveira Muge, conjuntamente com António Policarpo de Oliveira e Costa e Victor Montoya, reformularam o grupo.
Em 13 de Agosto de 1962, quando partiram do Cais do Sodré para a Beira/Moçambique actuaram no navio Infante, e foram convidados a permanecer nesse barco. Todavia, delicadamente recusaram porque o destino era a Beira onde tinham familiares à sua espera.”
Começaram a notabilizar-se rapidamente, pois com um nível fora do comum, abrilhantavam bailes, festas e outros eventos, tanto na região de Manica e Sofala como em Lourenço Marques. Actuaram também no antigo Rádio Clube de Moçambique (RCM) na sua passagem por Lourenço Marques e mais tarde nos países limítrofes.
Em Outubro, Novembro e Dezembro de 1962, deslocaram-se à antiga Rodésia, onde apresentaram na TV, em directo, o programa “Seven Three Oh Show”, com muita audiência e ainda em hotéis, Clubes de Salisbury e Boite La Boheme.
Em meados de Janeiro e durante o mês de Fevereiro de 1963, actuaram no Quénia, no New Stanley Hotel (Grill Room), em Nairobi e também na TV local.
Em 1964 foi-lhes concedido pela imprensa moçambicana, o primeiro Prémio entre os melhores do ano, o que lhes permitiu percorrerem Moçambique de lés-a-lés.
Chegaram a ser convidados não só para se deslocarem à África do Sul, o que veio a acontecer, como a Londres e a Chicago e só não assinaram os contratos para as digressões porque não quiseram enveredar pelo profissionalismo.
Ainda em 1965, depara-se-lhes o primeiro contacto com o estúdio de gravação da Rádio Aero Club (RAC), onde gravaram o seu primeiro EP.
Em 1966, surgiu a hipótese de se deslocarem à África do Sul para gravarem nos estúdios da Parlaphone/EMI e será editado, pela Importadora, o 2.º EP, On the Road with Oliveira Muge, onde estava incluída a faixa “A Mãe”, da autoria de António Policarpo.
Era a época do Pop/Rock (Rock e Twist), no entanto o seu repertório baseava-se essencialmente na música italiana, espanhola e francesa (eram exímios).
Foi nessa época considerado um dos melhores conjuntos de Moçambique, de grande qualidade musical. Venderam inúmeros EPs e as suas canções passavam imensas vezes nas rádios. Os seus EPs gozavam de grande popularidade, colocando-se entre os tops dos 10 mais vendidos. O tema “A Mãe” foi das canções mais solicitadas pelos militares em Moçambique, no período da Guerra Colonial.
Em 1969 regressaram temporariamente a Portugal, onde actuaram em bailes de Carnaval de Ovar.
Entretanto decorria a Guerra Colonial. O grande êxito do compositor Policarpo Costa era a “A Mãe”, um tema sentimental que lembrava a separação, a dor da partida, a distância das famílias e os militares e acima de tudo, as saudades que os militares tinham das suas “mães”.
De regresso a Moçambique, o conjunto manteve-se activo até cerca de 1974.
Regressaram em 1976, por altura da Independência de Moçambique. Como teria dito a cançonetista portuguesa Maria de Lurdes Resende que trabalhou com este conjunto, “ O conjunto de Oliveira Muge é um agrupamento de muita categoria”. Sem dúvida, de categoria internacional!
Posteriormente, em Julho de 1976, o grupo reapareceu actuando durante vários anos no Restaurante Progresso, do Furadouro, não faltando no seu vasto repertório, os ritmos africanos de Moçambique e não só.
Para que conste, o famoso tema “A Mãe” foi recentemente utilizado como música de fundo no filme português “Aquele Querido Mês de Agosto” que foi o único filme nacional presente ao festival de Cannes/2008, tendo sido incluído na Quinzena dos Realizadores.
Também no filme TABÚ do mesmo realizador e que foi Prémio da Crítica no Festival de Berlim de 2012, a história desenvolve-se à volta da vida do grupo, passada em Moçambique (o personagem principal tem um conjunto yé yé inspirado no Conjunto Oliveira Muge).
Actualmente, José Muge vive em Ovar, onde o bichinho da música ainda o atormenta. Ainda toca e compõe… e mantém a paixão, o gosto e a dedicação à música.
Quanto ao José Violante (viola baixo), após o 25 Abril 74 a sua actividade musical já nessa altura estava praticamente reduzida aos fins de semana, simplesmente para alimentar o seu “bichinho” pela música e a poder desfrutar. Com excepção da era Oliveira Muge essa actividade nunca foi tão intensa, dedicada e profissional.
De regresso, em 25 Abril 76 chegou a Portugal com a esposa pela 2ª vez. Estivera em 1969 com o Zé Muge, o Policarpo e o António Muge a fazer o Carnaval em Ovar, terra natal dos seus companheiros da banda que seriam sempre os seus mentores, um marco na sua vida e para quem teria sempre uma palavra de agradecimento.
No entanto, o ambiente musical que encontraria na “metrópole” quando chegou, era diferente do que imaginava.
Certamente que haveriam vários factores que contribuíram para isso, nomeadamente a falta de estabilidade emocional e económica da época. Sem isso, dificilmente haveria lugar para fazer música nos moldes que gostava e imaginava.
Nessa altura, pontualmente os músicos moçambicanos regressados das ex-colónias juntavam-se para tocar onde fosse possível e essencialmente para melhorar os seus rendimentos.
Felizmente, nos finais da década de 70, a situação começou a melhorar.
Em 1979 assinou um contrato por 6 meses na Figueira da Foz com o pianista Mário Simões. Após esse contrato, ficou temporariamente inactivo mas, em meados de 80, juntou-se a alguns colegas músicos moçambicanos no Casino de Espinho, com quem trabalharia com agrado.
A linguagem musical era idêntica e acabou por formar e integrar a banda ''Sygma'' (Sygma Band), grupo que, para além de si próprio (no baixo), era composto por Carlos Alberto Silva (bateria), Pedro Abreu (teclas), Zeca Carvalho (guitarra) e Domingos Fu (voz, bateria e percussão).
Este grupo foi residente no Casino de Espinho, no da Figueira da Foz (com vários contratos), no Estoril e na Madeira, no Sheraton Hotel.
Dos vários contratos que fizeram com o Casino da Figueira da Foz, terá sido o último o que os ligou à empresa e à cidade. Foram 25 anos neste Casino.
Violante ainda hoje recorda saudosamente o Conjunto Oliveira Muge, mantendo vivo o gosto e o "bichinho" pela música. Continua activo, ainda toca com prazer, dedicado e disponível sempre que precisem dele…!
Policarpo faleceu em 13 de Julho de 2012.
Por Carlos Santos.
(Agradecimento especial aos amigos José Muge e António Policarpo (já falecido entretanto) que tiveram a gentileza de oportunamente me cederem recortes de jornais da época, fotos e apontamentos sobre o conjunto e à colaboração do nosso amigo Rafael Amorim.
(Actualização efectuada em 18/10/2012)
Discografia:
1º. EP - And The Heavens Cried / Twist Bocage / Et Pourtant / Sabato Sera (1965)
2º. EP - Nessuno Mi Puó Giudicare / Mirza / A Mãe / In Un Fiore (1966)
3º. EP - Sospesa Ad' Un Filo / Cosi Come Viene / Gorongoza / Maggie (1967)
4º. EP - Piange Con Me / Longe de Ti / Il Mio Amore Con Julia / In The Moonlight (1968)
EP disponibilizado por Carlos Santos.
Ripado do vinil. Digitalização (capas e áudio) e masterização, por Carlos Santos.